O (grande) triunfo de Miesha Tate

Senhores, o que vimos no UFC 196 não foi sorte. Foi talento em estado puro. Miesha mereceu esse cinturão dos galos. Posta como a zebra diante da então imbatível Holly Hom, quem diria que a wrestler de high school no ultimo minuto da luta iria fazer história aplicando um justíssimo mata-leão numa Holm dominante? Nem eu e nem você poderíamos prever. Isso nos dá a exata medida que a saída (provisória) de Ronda Rousey da categoria tem feito muito bem, movimentando-a, dando-lhe imprevistos e fazendo com que rainhas postas sejam destronadas no dia seguinte.

Miesha Tate merece o cinturão e mais do que isso, merece nosso respeito. É o tipo de lutadora, desde cedo, talhada nas artes múltiplas do MMA. Sabe ser competente em todas as frentes de batalha. Prova disto é que já ganhou (e perdeu) das mais variadas formas. Já nocauteou. Já foi nocauteada. Já finalizou. Já foi finalizada. Já ganhou por decisão unânime. Já perdeu assim também. Experiência é o seu nome, Tate. Os outros que te subestimam, eles não sabem de nada.

O que nunca consegui entender foi o descrédito atribuído a atual detentora do cinturão dos galos. Com sua versatilidade e arsenal variado de técnicas, ela é o futuro do MMA feminino. Mas Dana White, que só vê a sua frente a luz da sua menina de ouro Ronda Rousey, quase mandou Miesha Tate pra fila da aposentadoria, ao desqualificá-la para a disputa do cinturão, em 2015. Deixou a tarefa hercúlea pra Holm. E o restante, já sabemos. O restante é história que se fez diante da incógnita da volta de Ronda Rousey e do caminho aberto para outras atletas brilharem.

Tate é o futuro do MMA por um simples motivo: não adianta ser excelente em apenas uma arte marcial e adaptá-la com maestria ao cage. Não, isso não basta. Ronda Rousey quando perdeu, perdeu em pé, o que demonstrou todo o seu desconhecimento de boxe diante de Holly. Por sua vez, Holm quando perdeu, perdeu no chão, demonstrando todo o seu desconhecimento de jiu-jitsu que nunca tinha sido testado graças a sua excepcional defesa de quedas. Porém, MMA senhores, é um jogo de artes marciais mistas. Não dá pra confiar na excepcionalidade de só uma arte. Isso ficou lá atrás nos primórdios do MMA, antes vale tudo, em que cada um entrava com sua especialidade, no afã de provar quem era superior. A evolução dessa modalidade esportiva exigiu que os atletas treinassem boxe, jiu-jitsu, muay thai, kickboxing, wrestler, grappling, judô, karatê, dentre outras artes marciais. Quanto mais versátil, mais coelhos nas cartolas os lutadores e lutadoras possuem pra definir o combate.

Por tudo isso que Miesha Tate deve ser reconhecida nos seus méritos. Porque alem de ser uma das mais antigas lutadoras de MMA na ativa (isso com apenas 29 anos), é uma atleta que tem evoluído a cada apresentação, jogando um jogo mais coeso, com poucas falhas e cada vez mais estratégico. Tate era do tipo como ela mesmo falou: “se precisar, levo porrada pra dar porrada”. E ela tomava isso ao extremo, abrindo a guarda e indo pra cima, o que acabou lhe rendendo alguns knockdowns e revezes. Mas também lhe rendeu, por conta do coração e da resiliência, vitórias expressivas em cima das atletas mais gabaritadas da sua categoria como Marloes Coenen, Julie Kedzie, Liz Carmouche, Sara McMann, Rin Nakai e Jessica Eye. As derrotas de Miesha Tate pra Ronda Rousey e Cat Zingano, na minha opinião, ocorreram apenas porque Tate não escolheu a estratégia certa pra dominá-las, como fez com Holly Holm. Miesha perdeu pra Ronda porque fez o jogo dela, lutando agarradinho e se arriscando a ir para o chão com uma judoca mais do que experimentada. Perdeu pra Zingano também porque foi cutucar a onça com vara curta: Cat Zingano é daquelas que pode ser excepcional se você ativar nela o modo porradeira vingativa e foi o que Miesha fez ao pisar desnecessariamente em Cat após final do segundo round. Resultado: Zingano voltou com sangue nos olhos e mesmo tendo perdido os primeiros rounds, tratorizou Miesha numa surra implacável que me fez temer a Cat desde então. Não mexam com ela! É outra candidata fortíssima ao cinturão.

Mas voltando a Miesha. Pra ela tiro o meu chapéu. Tem o queixo mais duro da história do MMA feminino; domina todas as áreas e sabe usá-las quando o incêndio começa; é quase de borracha ao não desistir da luta quando foi pega naquele armlock cruel e desnecessário de Ronda, na primeira luta delas; evolui a cada apresentação e é uma camaleoa adaptando-se ao jogo da adversária, seja em qual estilo for. Ao contrário do que já li de alguns cronistas, Tate possui sim um alto Q.I. de luta, e, no que é possível perceber, essa inteligência só tem se sofisticado com o tempo. Ela sabe conter o ímpeto das adversárias e, mais o importante, sabe capitalizar os erros alheios ao seu favor. E não está com o cinturão do UFC em sua casa à toa.

A menina sabe das coisas, gente. Vamos ficar de olho nela e torcer para que esse cinturão não seja uma batata quente e não pare na mão de ninguém, pois desejo muito que Miesha Tate faça valer todo esse talento em futuras defesas. Seja Ronda, Holly, Amanda ou Cat, elas não vão tirar tão fácil o que a Cupcake levou quase cinco anos para conseguir de volta.

* Texto dedicado as maravilhosas Vanessa e Zenólia, ambas mais viciadas em MMA que eu, pela aprendizagem, troca de idéias e carinho.

COMENTÁRIOS

comentários

Jeane Melo

6 Comments

  1. Eduardo Madeiro

    8 de março de 2016 at 11:39

    Adorei o texto. Bem escrito, com qualidade de quem acompanha a evolução do MMA feminino.

    • Jeane

      8 de março de 2016 at 14:36

      Sou fã desde 2008, Eduardo! De lá pra cá não parei mais de acompanhar… Que bom que gostou do texto.

  2. aliny

    8 de março de 2016 at 15:17

    Texto muito tendencioso, prefiro os do pessoal do sexto round, annnalisam com mais imparcialidade e seriedade, sem considerar preferencias pessoais, o que seria o correto pra analisar seja o que for. enfim, Miesha mereceu mesmo com toda certeza. Ela foi muito inteligente e paciente.

    • Jeane

      8 de março de 2016 at 20:22

      Neutralidade, ela é possível existir? Sou fã do esporte e me posiciono. Talvez tendenciosas sejam as opiniões que rebaixam a Tate pondo-a sempre como eterna coadjuvante. Mas hoje, ela é protagonista e por seus méritos. Observei e narrei essa situação. As pessoas não são obrigadas a ler o que não querem, mas críticas construtivas sempre serão bem aceitas. E no Sexto Round hoje, 08/03 foi publicado um texto com teor bastante similar a este. Abraços…

      • Eduardo Madeiro

        9 de março de 2016 at 21:01

        ótima resposta! Parabéns.

  3. Gustavo Lima

    9 de março de 2016 at 12:39

    Parabéns pelo texto Jeane, vou até compartilhar no Face na esperança de que tenha o maior alcance possível. Esse excesso de estratégias de venda empregado hoje no MMA faz com que o hype acabe cegando muitas pessoas e fazendo com que desinformação corra pelo boca a boca. Ver essa quantidade absurda de pessoas recusando a inegável evolução da Miesha desde os tempos de Strikeforce e desmerecendo a performance incrível dela contra a Holm no último sábado me deixou realmente bolado; E esse texto consegue dissecar ponto a ponto os motivos dela ser uma lutadora extremamente preparada e merecedora da cinta.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CAPTCHA