O dia em que a Terra parou ou a derrota histórica de Ronda Rousey por Jeane Melo

Não sei vocês, mas eu tô muito feliz. Nunca fui #teamrousey e com a devida permissão de quem acompanha o MMA feminino desde praticamente o seu início, fiquei em êxtase com a derrota de Ronda Rousey para Holly Holm no UFC 193, realizado neste 14 de novembro em Melbourne, Austrália. Nessa breve análise, queria ir para além do clichê “Holm chocou o mundo” e analisar a postura e trajetória de Ronda Rousey no MMA até culminar no nocaute que a destronou do lugar de rainha absoluta das artes marciais.

Acompanho as lutas da Rousey desde a época que começou como amadora, em 2010. Eu tinha um absoluto interesse na menina promissora da categoria dos penas (ela começou lutando nos 145 pounds, ou seja, pra nós 65 kg) porque já estava achando monótono a Cris Cyborg (provavelmente a lutadora mais dura do planeta) vencer passeando as suas adversárias. Acompanhava Ronda na medida em que ela poderia oferecer um bom combate pra Cyborg. Mas aí a história mudou a partir do final de 2011. Ronda anunciou que desceria de categoria. O Strikeforce foi vendido pro UFC. Cyborg caiu no dopping e ficou um ano e meio suspensa. Nesse intervalo, Ronda impôs o seu nome a partir de um trash-talk com a excelente Miesha Tate, que não deu conta de manter o cinturão, perdendo para Ronda em 2012, no Strikeforce (e novamente, em 2013, no UFC).

Ronda decolou como um raio na grande mídia. Depois de Gina Carano, nunca tínhamos tido uma atleta tão segura de si, com mente e coração de campeã, inabalável diante da pressão e dos holofotes, e, mesmo estando há um bom tempo no olho do furacão, continuava evoluindo notoriamente a cada apresentação. Essa ascendente ruiu precisamente em 14 de novembro de 2015.

Particularmente, sempre achei um tanto perigosas as declarações polêmicas da Ronda. Sei que nisso também residia o fascínio em torno dela e alimentava o folclore da super-atleta imbatível. Que ela foi até hoje. Porque não existe ninguém imbatível e, cá pra nós, soa muito arrogante se colocar nesse lugar tão alto. Admiro atletas seguros, mas não aqueles e aquelas que se investem de uma soberba sem cautela alguma. Agora, não sei se isso foi o que vaticinou a derrota de Ronda. Aposto muito mais nas qualidades da Holly Holm do que um suposto apagão de Rousey. Holm é uma atleta superior a Ronda e ponto final. Soube deixá-la perdida, grogue a ponto de conseguir fugir do seu matador arm-lock, aplicado sem nenhum efetividade, e pasmem, até derrubá-la sem nenhum dificuldade. Tirou a divindade em torno de Ronda e castigou-a humanamente como uma atleta que sofreu um revés porque simplesmente apostou na estratégia errada e naquela noite, foi inferior. Ronda não conhecia nem erro, nem perigo, nem derrota. Não sei como está a sua cabeça nesse momento. De acordo com Dana White, está “devastada e decepcionada”. Não é pra menos. Foi um dos nocautes mais brutais e arrasadores do WMMA, nocaute tão brutal que eu só conhecia nos idos anos de 2007 pelos pés de Kaitlin Young em cima de Miesha Tate (que renasceu depois daquele golpe devastador que me causa incômodo até hoje de assistir).

Mas o que quero dizer é que Ronda, mesmo trazendo brilho, repercussão e respeito ao esporte, sendo a responsável pela sua entrada no UFC, também causou alguns danos com suas declarações. Ronda Rousey se empenhou ativamente para destruir a reputação de Cris Cyborg, fazendo isso com frequência e até com algum grau de sadismo. Chamou a atleta transgênera Fallon Fox de homem, numa declaração desnecessária, transfóbica e preconceituosa. Cresceu em cima do trash-talk promovido contra Miesha Tate que sempre foi uma atleta pautada no respeito as suas oponentes. Chegou, em uma entrevista, ao cúmulo de dizer que tinha uma genética tão privilegiada que seria um crime não ter filhos (ela faz parte de alguma raça superior? Não sabia. E até onde sei esse papo de superioridade genética foi uma das bases do nazismo). Ronda desmerecia publicamente suas adversárias, cada uma delas, até chegar ao absurdo quase premonitório de prever a estratégia vencedora de Holm: “ela vai se movimentar muito, vai tentar me frustrar, se aproveitar de um erro meu e tentar um chute na cabeça. Mas não vai conseguir”. E Holm cumpriu à risca esse script que custou o cinturão de sua oponente e pôs em xeque toda a aura de invencibilidade construída em torno da figura de Rousey.

Acredito seguramente que o UFC não esperava que a sua máquina de dinheiro, publicidade e patrocínio (em um momento que a organização carece de campeões carismáticos) pudesse perder. Holm, por mais que estivesse invicta, tinha feito apresentações mornas e burocráticas nos eventos da franquia. Seus poderosos e matadores chutes altos não tinham sido ainda experimentados no UFC. Então, quem imaginava que uma lutadora com esse histórico de pouca explosão poderia sequer fazer sombra a tormenta que Ronda Rousey é quando está no octógono? Ninguém. Eu mesma achava que Holly tinha muito mais chances de perder. E eis que a atleta mostrou uma consistência e um volume de jogo marcial nunca antes visto contra Rousey.

Holm foi paciente. Utilizou lindas esquivas e os golpes, jabs, diretos e cruzados, entraram limpos. Quanto mais assisto essa luta, mais vejo que a Ronda serviu realmente como um sparring de luxo. E que surra! Ela era apenas uma espécie de aprendiz diante de alguém com um talento muito maior. E Holly Holm foi grande. Impôs o jogo, a melhor estratégia, minou a segurança da oponente, revelou suas fragilidades, esperou o tempo certo e preciso do contra-golpe até coroar a vitória com a cereja do bolo: o chute alto, indefensável diante de uma Ronda grogue, que lhe pegou em cheio na lateral do pescoço. Como na música de Chico Buarque, Construção, Ronda caiu como um “pacote flácido”, apagada, desnorteada e sem a menor capacidade de continuar a luta.

Derrota chocante de um lado, vitória chocante de outro Toma lá, da cá. Ainda estamos digerindo os efeitos disso tudo e vamos ver quais os rumos que o WMMA tomará depois do dia 14 de novembro. Depois que a maior atleta sucumbiu a uma amarga derrota. Depois que Holly Holm determinou que Ronda não se aposentaria invicta. Depois, bem depois acompanharemos as movimentações desse jogo de xadrez. E, quanto a mim, jamais imaginei que um dia estaria escrevendo uma crônica sobre a derrota histórica de Ronda Rousey. Que dia esse de hoje, senhores!

Por Jeane Melo

Feminista, nordestina, professora de História e colaboradora do blog Biscate Social Club.

COMENTÁRIOS

comentários

Jeane Melo

11 Comments

  1. Ingrid

    16 de novembro de 2015 at 15:21

    Jeane, sou fã da Ronda Rousey, mas não há como não concordar com praticamente 100% do seu texto. Pontual em todos os aspectos. Afinal, para admirar o trabalho e as conquistas de alguém, não se precisa concordar com tudo que ela faz ou fala, e a Ronda é um grande exemplo disso. Acho-a fantástica dentro do octógono e extremamente autêntica fora dele, mas sua imaturidade a faz agir como uma criança mimada em várias situações. O feminismo de Rousey é torto e com pouca base, infelizmente, haja vista a visibilidade que tem, podendo expandir e representar muito mais do que já fez até agora (ainda sim, considero tudo o que ela fez até agora muito válido). Ronda tem, sim, muito a aprender. Estou contando que essa derrota sirva para trazê-la de volta à terra, aprender a respeitar melhor seus adversários, amadurecer e ter mais humildade, e treinar para tornar sua técnica cada vez melhor, e nos permitir mais espetáculos (e confesso que estou torcendo pra ela recuperar o cinturão, hahaha).

    Parabéns pelo texto.

    • Jeane

      17 de novembro de 2015 at 10:07

      Oi Ingrid, que bom que gostou do texto. A Ronda não inventou o MMA femininino, mas foi a grande responsável pela pavimentação dele. Antes dela, tivemos atletas não mais que brilhantes como Megumi Fujii, Satoko Shinashi e até a Cris Cyborg, fora as meninas campeoníssimas do boxe e do muay thai. Como estamos em um meio machista, me parece que o destaque só é dado à medida que a atleta possui além de uma técnica invejável, também a beleza padrão pra chamar holofotes e dinheiro. E Ronda, se encaixa nessa brecha aberta por Gina Carano, mas claro que não se reduz a isso. Espero que a derrota de Ronda seja um convite para que apreciemos melhor seu jogo, suas falhas e suas potencialidades. A discussão da persona Ronda não deve abafar o foco que são as habilidades técnicas dela, extremamente questionadas depois dessa luta. Acho ótimo que o cristal trincou pq ela vai ter que fazer autocrítica (se for inteligente) e seguir mostrando novas armas. Se ela vai continuar se pondo num olimpo, isso não sei, só sei que vende pra caramba. Não sei se veremos uma Ronda humilde. Eu mesma não conto com isso. Quero que ela se reinvente dentro do octagon e que as meninas da categoria dela ganhem fôlego pra enfrentá-la. Porque, tirando a Bethe, quase ninguem queria enfrentar a Ronda. E eu espero que isso mude e categoria dos galos seja mais dinamizada. É isso.

  2. Wallace Dutra

    16 de novembro de 2015 at 19:54

    Ótimo artigo! Costumo ler o Sexto Round e o Dama de Ferro, pra saber as novidades em português do MMA.
    Pessoalmente, tinha prova às 08h30 e não consegui dormir, nem antes do UFC 193, nem depois, com o choque.
    De fato, é uma combinação entre os méritos da Holm (experiência no boxe, foco, estratégia – principalmente da movimentação) e as falhas da Rousey (guarda baixa/exposição aos socos, lado psicológico meio “perdido”/pouco coaching do Tarverdyan – será que não acendeu um “sinal vermelho” quando acabou o 1º round?, poucas tentativas de jogo de chão – me pareceu que ela queria derrubar a Holm como fez com a Correa).
    Gostei muito da perspectiva histórica: como o MMA feminino era com Cyborg, com Tate e com Carano e agora com a Ronda. E lembro da Cyborg falar exatamente que nocautearia RR porque (adaptado) “ela nunca tinha levado muitos socos naquele nariz”… até agora.
    Ao contrário de você, fiquei arrasado com a derrota. Mas reconheço que ela já deu declarações desastrosas, sobretudo contra a Fallon Fox. Ela, de alguma forma, ajudou a abrir portas para o WMMA, mas colocou um bloco de pedra para lutadorxs transsexuais.
    Para o esporte, não poderia ter sido melhor (afinal, qualquer lutadora, com muito esforço, pode chegar ao cinturão, como a Holm ou o Weidman).
    Talvez para a Zuffa também.
    Para Miesha Tate, pode ser a chance que faltava para o cinturão (mesmo que Dana White subestime muito a americana), e o mesmo para brasileiras como Amanda Nunes e mais ainda a Cris Cyborg.
    Para Ronda, espero que ela se reinvente e volte como o GSP (e não como o Anderson Silva); só xs verdadeirxs campexs levantam de cabeça erguida depois de uma queda.

    • Jeane

      17 de novembro de 2015 at 10:38

      Wallace querido, fico me perguntando se a Cris Cyborg fosse americana e tivesse a fotogenia padrão que os caras querem, se ela não teria sido alçada a categoria de celebridade. Acho que sim. Ela ganhou da Gina Carano (e sempre houve muito respeito entre as duas) e mesmo assim, a carreira não decolou conforme o talento que possuía. Ronda entrou pra assumir o lugar vago deixado pela Gina e foi em cima dele que construiu a sua imagem. Sei que não é o caso, mas tem mts fãs recentes do esporte que acham que a Ronda inventou a roda, rs… A Ronda pôs a roda pra girar em cima de um grande aparato de mídia que acabou sufocando-a, tornando-a vítima de sua própria força, como ficou claro no final. E sobre o feminismo de Ronda, acho ele muito enviesado. É bem aquele feminismo típico liberal-norte americano, da selfie-made-woman, da super mulher acima das outras pobres mortais. E eu não gosto nada disso. Em vez de empoderar meninas, penso que sugere a competição carniceira. E o discurso de vitória estava tão atrelado ao seu nome, que vemos com choque eestranhamento o fato de ter perdido. Não vamos reforçar o bullying contra ela, mas não nos esqueçamos que ela praticou bullying contra algumas adversárias, especialmente a Cris Cyborg. E foi muito impiedosa nisso.

      E por ultimo, acho que a mãe da Ronda, com a intuição apurada que todas as mães têm, já estava prevendo que a filha teria dificuldades diante de adversárias mais versáteis e duras. A denúncia de que Ronda estaria sendo mal orientada pelo técnico armenio já dá sinais disso. Bem, mas ainda veremos muitas águas rolando em torno dessa luta.

  3. flavia

    17 de novembro de 2015 at 12:05

    Diante dessa situação so temos que esperar a arrogância predominate de Ronda acabar ou aumentar diante de tudo isso. Sou super fã da Ronda estou acompanhando seu trabalho a um tempo e de varias lutadoras. Estou montando um vídeo documentario sobre mulheres no Ufc,e essa sem duvida é uma das maiores repercussões de impacto, um dos motivos é que a mídia rótula dimais uma pessoa, transformando em pedestral, tirando qualquer mérito dos outros concorrentes. Ate aquele combate a unica estrela era Ronda, so que naquele noite o bilho se acendeu pra Holly Holm.

  4. Mel

    18 de novembro de 2015 at 9:03

    Ótimo texto! Você conseguiu colocar em lindas palavras tudo aquilo que eu sempre quis expressar mas não consegui com tamanha eficiência.
    Nunca fui #TeamRousey mas é claro, reconheço o potencial que ela tem como atleta. Porém o discurso dessa mulher era uma vergonha, afinal ela ultrapassou aquela linha tênue entre confiar em si e se achar superior a todas(os), o que deu a ela essa fama de imbatível, porque suas falas somaram-se ao fato de ela estar invicta até o momento. Ela precisava desse choque para descer do Olimpo, onde ela achava que vivia, para se tocar que na verdade era uma reles mortal como qualquer pessoa. Se não fosse toda essa arrogância e falta de respeito com outros lutadores tenho certeza que ela não estaria sofrendo tantas piadas e deboches assim. A gente colhe o que planta, Rousey…

  5. Mel

    18 de novembro de 2015 at 9:06

    Ah, e não acredito naquela historia de “zebra” que atribuíram a Holly Holm. Zebra é ganhar na sorte, e a Holly ganhou por competência.

  6. Ruan

    31 de janeiro de 2016 at 0:29

    Pois e , gente vamos reforçar e lembrar que a mulher que chamou foi o centro do MMA feminino foi a GINA CARANO , quem sabe de mma feminino sabe que foi através dela que ronda rousey cresceu, gina se aposentou depois da derrota por cyborg e deixou uma brexa vaga e nessa brexa a ronda se encaixou , tem aqueles estereótipos de aah e gostosa e loira e bonita , aí ela soube chamar atenção, e me desculpem fãs da ronda, mais ela não e uma boa lutadora de verdade, ela sabe que ela sempre venceu no chão o judô dela falava mais alto no octógono, a chave de braço era a especialidade da casa, sempre soube que na trocação ela iria perder de verdade, ela não dava tempo para aa adversárias e levava ao chão e a maioria das adversárias dela sabia do judô afiado e se preparavam para a defesa do judô e esqueciam outras formas de ganhar a luta, acredito que cat zingano chegou perto da vitória porém a pressa e de fazer história aquele dia , fez com que ela agisse de forma apressadamente e caiu no jogo da ronda, a única que chegava perto de derrotala era miesha tate pois levava as lutas ate o 3° round com ela, mais foi outra que se preocupou com o judô de ronda e esqueceu outras formas de vencer a luta, holly surge no ufc invicta, lutadora que luta em pé treina com um dos melhores lutadores do mundo , aguenta porrada mesmo e n tem mimimi, claro que ela estudou o judô de ronda e soube se sair mt bem quando ela tentava levar ao chão, mais não esqueceu da especialidade dela mesma que e o boxe, ela calculou a distância pois em cima ela dominava, só tinha que se preocupar com o chão, tanto e que em uma parte da luta ela derrubar a ronda no chão e a ronda ainda deitada querendo brigar no chão e holly em cima dela , ela levantou tirou os pés de ronda de cima dela dando espaço para lutar em pé o narrador até ressaltou ‘holly não quer saber de lutar no chão, ela deu espaço para ronda lutar em pé, . Holly e até agora para mim a melhor lutadora do ufc , e acredito que miesha sendo sura na queda não tem chance de vencela , mais sim cyborg a única que tem chances de vencer a holly. Estou sempre por dentro de todas as lutas do ufc principalmente feminino e esta a minha análise.

  7. Aliny

    1 de fevereiro de 2016 at 1:52

    Ronda NAO falou mal publicamente de todas as adversarias… o texto ia bem ate chegar nisso…. Ronda nao falou mal da Liz, da Alexis da Sara e da Cat…. sejamos justos.

  8. Beatriz Campanhão

    10 de abril de 2016 at 15:39

    Holly Holm é tão fascinante, que virou holofote não por ganhar, mas por Ronda perder.

  9. Plínio Marques Júnior

    2 de julho de 2016 at 15:55

    Cara Jeane: Parabéns pelo excelente texto. Eu nunca nutri simpatia pela Rhonda pelas características que você descreveu tão bem. Se a Cyborg pegar esta patricinha mimada e arrogante (com o perdão destas redundâncias) ela vai simplesmente destruí-la. Espero ter o prazer de ler mais textos seus. Abraço.

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