Concentração na hora da luta – quando nossa mente é o pior adversário

    Em psicologia, concentração cognitiva é o processo de focalizar e selecionar estímulos recebidos. A todo instante nosso cérebro recebe uma quantidade de informação muito maior do que ele pode processar. Quando nós estamos prestando atenção em algo, selecionamos as informações relevantes e descartamos as demais. Na educação fala-se muito sobre isso, sobre o ‘prestar atenção’ nas aulas. Mas nos esportes esse processo cognitivo também é muito importante, tanto nos treinamentos como nas competições.

    ​Durante uma luta, você basicamente tem que se concentrar em duas coisas: os movimentos do seu adversário, e as instruções do seu corner. Mas isso não é uma tarefa tão fácil como parece. E é simples de explicar como a falta de concentração na hora da luta afeta o seu desempenho: a partir do momento em que você está prestando atenção em outras informações, sejam estímulos sonoros, visuais ou pensamentos distantes, seu cérebro está despendendo energia com coisas que não são importantes.

    Existem lutadores que se abalam com a torcida, contra ou a favor, e geralmente os técnicos sabem quem são esses. Há também os que se incomodam com provocações do adversário. Concentração na hora da luta exige que você preste atenção em cada movimento do seu adversário, mas ignore suas “gracinhas”, e isso é mais difícil que prestar atenção numa aula de física quando o professor é um galã de novela. (Tenho certeza, porque já vivi as duas situações). Existem atletas que têm sua performance afetada por se preocuparem demais com pessoas presentes na plateia, mas como dizer à sua mãe/namorada/marido que prefere que ele(a) fique em casa? O jeito é aprender a se concentrar sob quaisquer circunstâncias.

    E eu aprendi. Todos esses fatores que eu citei já me incomodaram, nas minhas primeiras lutas, mas depois eu passei a ignorá-los. Mas a lição final eu aprendi da pior forma. Houve uma época que comecei a ficar conhecida no cenário nacional do MMA. Estava vindo de boas vitórias, sempre recebendo muitos elogios, mas também algumas duras críticas. E durante algum tempo minha maior preocupação era provar aos outros que eu era boa de verdade. Durante muito tempo eu não sabia como lidar com opiniões negativas a meu respeito.

    Comentários negativos sobre as minhas lutas me faziam chorar (literalmente).
    Foi nessa época que eu entrei no octógono carregando uma tonelada nas costas. A cada passo em direção à porta do cage eu relembrava algum comentário negativo que já recebera e pensava “hoje vou mostrar que estão errados”. E então aconteceu o que não poderia acontecer, levei uma queda logo nos primeiros segundos de luta. E a minha mente se desmanchou em mil pedaços. Durante todo o tempo em que eu estava por baixo, no chão, tudo que eu conseguia era imaginar o que as pessoas falariam depois da luta. “Vão dizer que eu sou péssima de chão mesmo”, “Vou ser motivo de piada”, “Meus alunos ficarão envergonhados”, “Meus pais vão ficar decepcionados”… Esses eram apenas alguns dos pensamentos que passavam na minha cabeça e de repente eu não conseguia mais me concentrar em nada. Era como se tudo que eu havia treinado durante meses para aquela luta de repente tivesse sido apagado da minha memória. Nada disso justifica uma derrota. Naquele dia minha adversária, que era uma lutadora de altíssimo nível, foi melhor que eu e mereceu vencer. Ainda por cima deve ter sido uma das adversárias que me tratou melhor antes e depois da luta. Com toda a raiva que eu sentia pelo meu desempenho, uma pequena parte de mim não conseguiu sentir nada de ruim, ao ver a alegria dela comemorando. (Comemorando porque me venceu!) Esse deve ter sido o tipo mais estranho de empatia que já senti na vida.

    Depois da luta, eu saí do ginásio desejando sumir do mundo. Não queria pegar meu celular, muito menos entrar na internet, imaginando a enxurrada de críticas e deboches que receberia. Mas vinte e quatro horas depois, eu achei que estava pronta para começar a chorar (de novo). E então tive uma grata surpresa (mas que me fez chorar do mesmo jeito). Foram milhares de mensagens positivas, comentários de que havíamos feito a melhor luta feminina do ano e (surpresa!) os elogios eram para ambas as atletas. Além disso, só recebi mensagens de apoio, de parabéns e inúmeras demonstrações de carinho. Não houve sequer uma crítica negativa. E parecia não fazer sentido que após minhas vitórias eu recebia tantas críticas, e após uma derrota não. Foi então que eu percebi que não deveria me importar com isso, ou pelo menos não durante uma luta.

    Naquele dia eu perdi, eu me lesionei, e eu aprendi uma lição. Desde então nada mais me preocupa durante o combate, apenas os movimentos da minha adversária, e a voz do meu corner.

    COMENTÁRIOS

    comentários

Kinberly Novaes
Kinberly Novaes é formada em educação física, atleta profissional de MMA, sócia-proprietária de uma loja, mãe de um filho e apaixonada pela arte de ler e escrever

1 Comment

  1. Ingrid

    29 de janeiro de 2016 at 14:34

    Maravilhoso texto e excelente motivacional para as novas gerações femininas de MMA! 🙂

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